Londres tem cheiro de cimento molhado quando chove (palavras da própria Amy Winehouse). Às vezes, antes de chover, tudo fica estranhamente opaco – é esse o sinal para correr para debaixo de qualquer cobertura e se proteger. Só que até a chuva de Londres é deliciosa. Sabe, não é quente e nem fria; é meio morna. Então eu sempre deixo o chuvisco me pegar – só que, quando vejo, acabo debaixo de uma chuva torrencial e, assustado com os trovões, tento correr desesperadamente para debaixo da primeira proteção que eu encontro. Só que todas são pequenas demais perto do dilúvio que está caindo; eu? Continuo correndo. Só que nem Londres é tão protetora assim – aliás, nada é grande o bastante para lhe dar espaço infinito para correr. O universo não é seu; nem todo o seu eu é seu, aliás. Há um momento, então, em que eu tenho que parar – é o fim de uma rua, um beco sem saída. A aflição de não achar mais caminhos, bifurcações, aclives e declives me consome mais do que a tristeza que já existia por fugir e fugir. Correr não é difícil. Difícil é parar e olhar para trás, ver o que fizemos pelo nosso caminho de maratonistas. Então eu dou de cara com o muro – irritado, faço isso literalmente e fico sangrando, debaixo de chuva, escorado no muro e abraçando as próprias pernas, escondendo o rosto entre os joelhos pela dor do peso das gotas na minha cabeça e deixando as minhas próprias gotas salgadas escorrerem. Lágrimas estas que sempre se diferenciarão das lágrimas da minha Londres – como óleo em água. Minhas lágrimas são sujas – impuras, fétidas; as de Londres não. As da minha Londres são claras, límpidas, magnificentes. Idolatráveis.
São de fênix as lágrimas da minha Londres.
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