Franzina era ela. Vivia adoentada; ninguém nunca lhe deu nada além dos sermões sobre como colocar o tempero na medida certa, ou sobre a forma correta de limpar o chão, ou sobre como engomar certinho as golas de camisas sociais masculinas. Não fazia nada disso certo (e era por isso que sempre apanhava), mas era muito boa em outras coisas. O alfabeto sabia de cór; tinha uma voz imponente, forte (era o sabiá do papai quando se metia a cantar). Diferente das outras meninas lindas e prendadas que estavam mais preocupadas em se emperequetar pros marmanjos, gostava de ir era pra escola. Adorava Matemática. Vinha todo o caminho pela estrada que ligava o colégio e a casa cantarolando o que havia aprendido na escola.
Cresceu. Cresceu sem ser a melhor na cozinha entre as oito irmãs; cresceu sendo a pior no roçado dentre todos os irmãos (dezesseis ao todo), mas, dentre todos, era a única cursando o terceiro ano do Ensino Médio na cidade próxima. Era a única que entendia o real valor do trabalho. Era a única que, bem, não ia para festas. Ficava era em casa, no cantinho meio sujo de barro do alpendre, resolvendo aquele monte de cálculo e lendo aqueles textos enormes. "Como é que tanta coisa cabe na tua cabeça??", "Sai dessa vida, tem festa hoje!", "Estudar o quê?! Trabalhar é que dá futuro!". Ouviu muita coisa. Era tristonha grande parte do tempo, mas nunca tanta felicidade foi vista no rosto dela e de sua mãe no dia em que passou no vestibular.
Amadureceu. Se mudou pra cidade grande pra morar com algumas colegas conhecidas que também passaram no vestibular e lá teve que ensinar o que mal sabia para as outras: cozinhar, passar, lavar. Estava morando era com um bando de dondocas. Eram cinco no total; uma morreu. A outra desistiu do curso, voltou pra cidadezinha natal. Outra foi morar com o namorado universitário. Ela e sua melhor amiga sobraram. Faziam o mesmo curso. Tinham um mesmo sonho: visitar Londres. Aprenderam inglês para isso, oras! Arranjaram emprego para manter o aluguel. De dia universidade, de tarde e noite no pesado. Ninguém nunca disse a elas que seria fácil — muito menos quando ela, um mês após algumas noites descuidadas com uns caras (era auto-suficiente demais para namorar sério) descobriu a gravidez quando não sangrou. Nem sabia quem era o pai — o que, sinceramente, para ela tinha tanta importância quanto um saco de esterco.
(+ continua)
Nenhum comentário:
Postar um comentário