segunda-feira, 26 de março de 2012

Intolerância à Intolerância

Eu realmente não queria começar a escrever aqui, o primeiro "post oficial", falando sobre um assunto tão pesado: homofobia. Mas é quando parece que tudo conspira para que você faça algo e, como escritor — aqueles que são sem dúvidas me entenderão —, eu não poderia ver o que vi e deixar em vago. Não poderia ouvir o que ouvi sem dizer o que penso sobre.
Buscando um tema descontraído, ontem iniciei uma grande viagem sobre o mundo da literatura para começar a, gradativamente, escrever sobre alguns pontos considerados "bons" e "ruins" da mesma em relação a diversos segmentos da Sociologia. A primeira obra que eu iria analisar seria "Vestido de Noiva", uma peça escrita por Nelson Rodrigues e que, para mim, é a grande obra prima do dramaturgo. Lendo a peça, então, enquanto fazia minhas anotações, escuto algo da minha rua que me fez mudar toda a ideia original: "TEM É QUE MATAR!", berrava um homem a todos os pulmões. "DEUS NÃO FEZ ISSO! É HOMEM E MULHER — O RESTO É DO DIABO!".
Uma pequena pausa aqui dedicada a minha e, quem sabe, a sua indignação. Uma pausa para respirar e tentar não chorar após ouvir uma coisa dessas.
Quem é este ser para pronunciar a palavra "Deus"? Sinceramente não sei em que igreja este homem teve sua base cristã, mas nenhum missionário pode se dizer "missionário" ao ensinar a intolerância, o preconceito. Aquele grande, maravilhoso e estupendo professor da paz Jesus Cristo nos ensinou a respeitar e amar o próximo, não a convidar quem quer que seja para uma chacina organizada. Sem querer entrar tanto no mérito religioso — mas já nele —, aquele ser humano que se diz cristão e agride um próximo (corporal ou oralmente) já cometeu um pecado incomensurável. Já perdeu o que o faz humano: a capacidade inteligível de socialização. Aquele homem ou mulher que se diz homofóbico ou age com homofobia perde todo e total respeito e integridade merecido, pois não é íntegro e muito menos respeitoso com o próximo — e isto o afasta de algo extremamente necessário para a vivência humana: a racionalidade. O ser preconceituoso, portanto, é irracional e incorreto a partir do momento que expressa sua "incompatibilidade" inadequadamente (tradução: quando destrata, espanca, agride ou mata seu igual).
É claro que ter uma opinião própria sobre algo é um direito democrático: você pode ser homofóbico, racista, o que for — entretanto, a partir do momento que isto transgride a barreira do respeito, da socialização e dos direitos humanos, torna-se crime e irracionalidade. Pois todos os indivíduos são iguais perante a lei — todos têm o direito de ir e vir, de serem respeitados, de terem a dignidade na vida de poder expressar publicamente o amor a outra pessoa — seja de qual sexo for — no momento em que for preciso. Todos temos o direito de viver com as escolhas que fizemos (se for uma questão de escolha) e pelo que somos, independente de qualquer que seja a opinião conservadora socialmente aceitável sobre o que nos cabe decisões.
Este texto não é só sobre intolerância a homofobia. É sobre intolerância à intolerância. É mais uma tentativa desesperada de tentar resgatar a humanidade do ser humano — e não só a humanidade do respeito ao próximo e da tolerância, mas a humanidade do "Bom dia" de todas as manhãs; do "muito obrigado!" gentil e verdadeiro. Do "me perdoe" de coração e alma.
Um dia — eu sei que sim — todas as pessoas se abraçarão sem notar a etnia ou berço das outras. Um dia — eu sei que um dia — as pessoas verão um casal de mesmo sexo num banco de parque, olharão por um segundo e, em seguida, continuarão seu caminho com normalidade, e não fixarão o olhar firmemente e semicerrarão os olhos para pensar algo acompanhado de "que coisa diferente...".
Pois eu sei, eu sei que um dia, o mundo verá tudo com normalidade e respeito.
E este dia só irá demorar a chegar se você deixar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário